Synesis para Profissionais do Direito
Como uma linguagem estruturada transforma o conhecimento jurídico em patrimônio institucional auditável
O conhecimento humano é naturalmente intrincado, repleto de nuances e conexões profundas. Ao longo do seu trabalho, profissionais do direito acumulam análises contratuais, pareceres lidos e comentados, jurisprudências, anotações de reuniões e registros de audiências — além de uma infinidade de conhecimento de natureza qualitativa.
1 Uma linguagem que tanto humanos quanto computadores entendem
Profissionais do direito já convivem com linguagens especializadas. O Latim Jurídico é o exemplo mais claro: expressões não utilizadas no idioma cotidiano, mas com vocabulário rico e regras próprias de uso que qualquer jurista compreende com exatidão.
Synesis é uma linguagem computacional de domínio específico (DSL — Domain-Specific Language) que cumpre papel análogo para o conhecimento de natureza textual. Sua gramática é reconhecida tanto por humanos quanto por computadores. Ela impõe estrutura sobre as anotações, de modo que o computador consiga verificar automaticamente se estão em conformidade com um contrato pré-estabelecido — o template.
Esse template é flexível o suficiente para atender a configurações completamente diferentes, definidas conforme a necessidade de cada profissional ou equipe. Um advogado pode criar uma configuração para organizar seus processos e documentos, classificá-los em categorias e estabelecer conexões explícitas entre elas. Em um banco de processos, por exemplo, é possível identificar temas, conceitos recorrentes e relações entre partes envolvidas.
Synesis permite registrar não apenas o quê — um fato, um argumento, uma posição doutrinária —, mas também por quê e como isso se conecta a outras coisas. Um profissional do direito pode documentar, por exemplo, que a ausência de boa-fé objetiva numa relação contratual tende a comprometer a execução do contrato — e vincular essa interpretação diretamente ao trecho do contrato que a sustenta, ao artigo doutrinário que a embasou e ao precedente jurisprudencial que a confirma. Essa teia de relações causais e conceituais, antes dispersa em múltiplos documentos e na memória do profissional, passa a existir de forma explícita, verificável e compartilhável.
2 O ecossistema Synesis
A linguagem em si é apenas o ponto de partida. O ecossistema Synesis é o conjunto de ferramentas que torna esse processo prático, cobrindo diversas etapas do processo de governança do conhecimento.
Criação e validação das anotações. Um ambiente de edição dedicado assiste o profissional enquanto ele anota: verifica em tempo real se os campos obrigatórios estão preenchidos, se os valores estão corretos e se as referências entre documentos são consistentes. Problemas são sinalizados imediatamente, antes que se acumulem.
Organização e exportação do conhecimento. O conhecimento acumulado pode ser convertido para os formatos mais comuns de uso profissional em ciência de dados — planilhas, formatos estruturados especializados —, tornando-se disponível para análise, compartilhamento ou integração com outras ferramentas. Para projetos de maior porte, é possível visualizar graficamente a rede completa de conceitos e relações construída ao longo do trabalho.
Consulta por linguagem natural. O acervo compilado torna-se consultável como uma conversa. Um profissional pode perguntar quais decisões tratam de determinado tema, quais conceitos se conectam a um precedente específico ou como um entendimento evoluiu ao longo do tempo — e obter respostas diretamente rastreáveis até as fontes originais.
3 O que Synesis não é
É importante dizer também o que Synesis não é. Um compilador valida estrutura — garante que os campos obrigatórios estão presentes e que os valores declarados são válidos. O conteúdo intelectual — a interpretação de um acórdão, a identificação de uma ratio decidendi, a construção de uma cadeia argumentativa — esse trabalho é e permanece sendo humano.
As anotações são armazenadas em arquivos de texto simples, legíveis por qualquer editor, sem dependência de plataforma ou formato proprietário. É possível, entretanto, que anotações sejam feitas com o auxílio de Inteligência Artificial, agilizando o processo de curadoria do conhecimento em um processo que pode ser fácilmente auditado por humanos.
Para um escritório de advocacia, isso significa que o conhecimento construído por um sócio experiente ao longo de décadas não fica preso em sua memória ou perdido em arquivos desorganizados. Ele se torna patrimônio institucional, auditável e evolutivo.
4 Exemplos práticos
4.1 A estrutura de uma anotação
Uma anotação em Synesis é composta por três blocos que, juntos, capturam a totalidade do conhecimento produzido sobre um documento. O exemplo a seguir parte de um acórdão do STJ sobre direito à privacidade.
Bloco SOURCE — a origem rastreável
Registra a fonte do documento com todos os seus metadados. Não há ITEM sem SOURCE correspondente — a rastreabilidade é estruturalmente imposta.
SOURCE @stj_peticao_1234
access_date: 2026-02-17
document_type: ACORDAO
tribunal: STJ
numero_processo: 1234/2025
relator: Min. Fulano de Tal
data_julgamento: 2025-11-10
data_publicacao: 2025-11-20
orgao_julgador: Terceira Turma
resultado: PROVIDO
url: https://processo.stj.jus.br/processo/pesquisa/?tipoPesquisa=tipoPesquisaNumeroRegistro&termo=1234
END SOURCEBloco ITEM — o trecho e sua interpretação
Registra o trecho relevante, a interpretação do profissional e as conexões causais com outros conceitos. O campo chain expressa relações explícitas entre conceitos — não apenas que dois temas aparecem no mesmo documento, mas como um prevalece sobre o outro.
ITEM @stj_peticao_1234
locus: CF/88 Art. 5, inc. X
quote: "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas"
note: O dispositivo consagra o direito à privacidade como direito fundamental absoluto, fundamento ratio decidendi da decisão recorrida.
chain: Direito_a_Privacidade -> OVERRULES -> Exposicao_Nao_Autorizada
END ITEMBloco ONTOLOGY — o vocabulário controlado
Define os conceitos utilizados nas anotações. Garante que todos os membros de uma equipe usem os mesmos termos com o mesmo significado — eliminando na raiz a fragmentação por sinonímia.
ONTOLOGY Direito_a_Privacidade
topic: Direitos_da_Personalidade
description: Direito subjetivo fundamental que assegura ao indivíduo o controle sobre sua esfera íntima, dados pessoais e vida privada, vedando interferências não consentidas de terceiros ou do Estado. Fundamento: CF/88, art. 5º, inc. X; CC, art. 21; LGPD, art. 2º, I.
END ONTOLOGY4.2 O template — contrato que governa toda a análise
O template define quais campos são obrigatórios, quais são opcionais e quais valores são aceitos. É ele que permite ao compilador validar automaticamente cada anotação. Embora sua sintaxe pareça técnica, o template é normalmente definido uma única vez no início do projeto — com apoio de profissional especializado ou com o auxílio de inteligência artificial.
TEMPLATE jurisprudencia_privacidade version: "1.0"
SOURCE FIELDS
REQUIRED document_type, tribunal, numero_processo,
data_julgamento, resultado
OPTIONAL relator, orgao_julgador, data_publicacao,
url, access_date
END SOURCE FIELDS
ITEM FIELDS
REQUIRED locus, quote, note
OPTIONAL chain
END ITEM FIELDS
ONTOLOGY FIELDS
REQUIRED description
OPTIONAL topic
END ONTOLOGY FIELDS
FIELD document_type TYPE ENUMERATED
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Tipo do documento jurídico
VALUES
ACORDAO: Acórdão de tribunal
SENTENCA: Sentença de primeiro grau
PARECER: Parecer jurídico
LEI: Texto normativo
END VALUES
END FIELD
FIELD resultado TYPE ENUMERATED
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Resultado do julgamento
VALUES
PROVIDO: Recurso provido
IMPROVIDO: Recurso improvido
PARCIAL: Provimento parcial
NAO_CONHECIDO: Recurso não conhecido
END VALUES
END FIELD
FIELD tribunal TYPE TEXT
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Tribunal ou órgão emissor do documento
END FIELD
FIELD numero_processo TYPE TEXT
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Número de identificação do processo
END FIELD
FIELD data_julgamento TYPE DATE
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Data do julgamento
END FIELD
FIELD relator TYPE TEXT
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Nome do ministro ou juiz relator
END FIELD
FIELD orgao_julgador TYPE TEXT
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Turma, câmara ou órgão responsável pelo julgamento
END FIELD
FIELD data_publicacao TYPE DATE
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Data de publicação da decisão
END FIELD
FIELD url TYPE TEXT
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Endereço de acesso ao documento no sistema do tribunal
END FIELD
FIELD access_date TYPE DATE
SCOPE SOURCE
DESCRIPTION Data de acesso ao documento
END FIELD
FIELD locus TYPE TEXT
SCOPE ITEM
DESCRIPTION Localização topográfica do trecho na norma ou decisão
END FIELD
FIELD quote TYPE QUOTATION
SCOPE ITEM
DESCRIPTION Trecho extraído literalmente do documento
END FIELD
FIELD note TYPE MEMO
SCOPE ITEM
DESCRIPTION Interpretação e análise do profissional sobre o trecho anotado
END FIELD
FIELD chain TYPE CHAIN
SCOPE ITEM
ARITY >= 2
DESCRIPTION Relação entre conceitos jurídicos identificados no trecho
RELATIONS
OVERRULES: Tese prevalece sobre entendimento anterior
CITES_PRECEDENT: Decisão fundamentada em caso anterior
DISTINGUISHES: Caso atual distinguido da regra geral
END RELATIONS
END FIELD
FIELD description TYPE TEXT
SCOPE ONTOLOGY
DESCRIPTION Definição do conceito jurídico, incluindo fundamentos normativos
END FIELD
FIELD topic TYPE TOPIC
SCOPE ONTOLOGY
DESCRIPTION Ramo ou domínio jurídico ao qual o conceito pertence
END FIELDEste é apenas um exemplo entre inúmeras configurações possíveis. Um advogado trabalhista pode estruturar sua base de jurisprudência de forma completamente diferente. Um departamento jurídico corporativo pode criar um template para gestão de contratos, outro para monitoramento regulatório e outro para registro de pareceres internos. Um pesquisador de direito pode mapear a evolução doutrinária de um conceito ao longo de décadas.
A gramática é a mesma. O que muda é o que cada profissional decide construir dentro dela.